PASTORALIDADE CÚMPLICE OU PROFÉTICA?
MULHERES, ABUSO SEXUAL E PODER PATRIARCAL EM COMUNIDADES EVANGÉLICAS BRASILEIRAS
Palavras-chave:
Pastoralidade, Mulheres, Abuso sexual, Teologismo patriarcal, Teologia feminista da recusa.Resumo
Este trabalho é fundamentado em pesquisa que investiga a legitimação religiosa do abuso sexual em discursos pastorais, propondo uma análise crítica das concepções sociológicas de gênero e dos exercícios de poder que permeiam a pastoralidade em igrejas evangélicas brasileiras. O objetivo é analisar como tais discursos contribuem para a perpetuação da violência sexual e propor alternativas teológico-pastorais que promovam justiça para meninas e mulheres. A pesquisa, de abordagem qualitativa, baseia-se na análise das trajetórias e memórias de mulheres evangélicas que vivenciaram abuso sexual na juventude por parte de pastores. Evidencia-se como o teologismo patriarcal, entendido como a teologização da desigualdade de gênero e da submissão feminina, contribui para o silenciamento das mulheres sobreviventes e para a perpetuação da violência, tornando a instituição cúmplice de um ciclo contínuo de sofrimento. O estudo demonstra a urgência de uma pastoralidade crítica e informada, capaz de desconstruir discursos que endossam o controle sobre o corpo e a subjetividade feminina. Aborda-se a naturalização da agressão
sexual pela autoridade do autor da violência e a instrumentalização da religião para justificar os abusos. A análise, que se alinha aos eixos Terra, Pão e Paz — ao discutir a exploração dos corpos (Terra), as relações de poder desiguais (Pão) e a necessidade de desmantelar estruturas de violência para alcançar a plenitude da vida (Paz) —, convoca à reflexão sobre os fundamentos de uma prática pastoral que promova a justiça de gênero e o verdadeiro Evangelho da Paz. Conclui-se que o enfrentamento do teologismo patriarcal e o desenvolvimento de uma Teologia Feminista da Recusa constituem caminhos essenciais para a construção de espaços eclesiais seguros e inclusivos, onde a voz das mulheres violentadas seja ouvida e a dignidade humana esteja no centro da prática pastoral.